E se a gente puser um mata-burro na porta?


"Adoraram o dragão, que tinha dado autoridade à besta, e também adoraram a besta, dizendo: "Quem é como a besta? Quem pode guerrear contra ela? "

À besta foi dada uma boca para falar palavras arrogantes e blasfemas, e lhe foi dada autoridade para agir durante quarenta e dois meses.

Ela abriu a boca para blasfemar contra Deus e amaldiçoar o seu nome e o seu tabernáculo, os que habitam no céu.

Foi-lhe dado poder para guerrear contra os santos e vencê-los. Foi-lhe dada autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação.

Todos os habitantes da terra adorarão a besta, a saber, todos aqueles que não tiveram seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a criação do mundo.

Aquele que tem ouvidos ouça:

Se alguém há de ir para o cativeiro, para o cativeiro irá. Se alguém há de ser morto à espada, à espada haverá de ser morto. Aqui estão a perseverança e a fidelidade dos santos." - Apocalipse 13:4-10


Na primeira vez em que ouvir falar sobre mata-burro, não tinha a menor ideia do que significava. Anos depois, soube que é uma espécie de um estrado que você coloca no chão, feito em metal ou madeira, para impedir fuga de gado mesmo com a porteira aberta. Meu primeiro chefe, Fernando Vieira de Mello, vira e mexe falava do tal do mata-burro. "Se eu botar um mata-burro ali na porta, ninguém entra e ninguém sai!", costumava bradar na redação. Nos idos dos anos 90, eu considerava um absurdo. Hoje me pergunto por que cargas d'água ele ficou só nas palavras. O tal do mata-burro poderia, por exemplo, ter salvado a Jovem Pan.


Sempre penso na quantidade de dinheiro que nosso país desperdiça anualmente com escola particular. Poderia ser revertido na eliminação de cotas nas posições de status social para filho burro de gente importante. Ou talvez na eliminação da cota em posições de status para sonso metido a valente, o que poderia converter nosso país em uma espécie de Noruega tropical.


O lado negativo dessas estratégias seria perder a nossa medalha de ouro olímpica mais certeira. Quanto se trata de lavar-se na sua própria lama, conseguimos bater o recorde até das ditaduras africanas mais sanguinárias. Temos algo que aos africanos falta: hipocrisia e capachismo. Sem esses dons, jamais permitiríamos que nossos algozes banquem os sonsos e, muito rapidamente, convertam-se em guerreiros heróicos pela cidadania.


Em determinado momento da minha vida, me apresentaram "um jovem muito promissor" na minha área de trabalho. Tinha 2 ou 3 anos menos que eu. Eu tinha mais de 20 anos de profissão, ele estreava no primeiro emprego. Papai, que era um bronco, chamaria de "vagabundo quer que o mundo acabe em barranco para morrer encostado". Maldade dele, era um jovem promissor. Depois de armar diversas perseguições via internet com amigos que hoje são suspeitos de tudo, alguns agora fugidos do país e outros atrás das grades, sempre tinha uma palavra amiga. Eu ficava emocionada. Um dia me perguntou sobre a emissora onde meu primeiro chefe queria ter botado o mata-burro. Lhe disse que fez falta.


"Ah, mas você tem algo contra eles?", perguntou. Estava pensando em processar por assédio sexual, assédio moral e o calote financeiro que me deram. Mas, fora isso, não tinha nada contra. "Muito chato você dizer que não tem nada contra, mas estar brigada com eles". Foi muito duro para mim segurar a gargalhada diante de tal demonstração de firmeza de caráter. Meses depois, a mesma figura proba teve a oportunidade de pelo menos reduzir o tamanho do calote que haviam me dado. Se fez de sonso, afinal sou briguenta, problema meu. Ninguém mandou sair de lá brigada. Continuava amicíssimo dos delinquentes que faziam linchamentos virtuais. Mas você não tem medo que eles fiquem radicais e percam a mão? Perguntei mais de uma vez. Aliás, perguntei mais de duzentas vezes. Em algumas, me segurei para não chacoalhar o moço. Deveria ter feito, mas tinha medo que o corpo fosse tão frágil quanto o caráter.


Tempos depois, a figura me aparece delatando parte dos seus comparsas na maior indignação. Jamais pediu desculpas ou tentou reparar aqueles cujas cabeças utilizou para fazer sua escada rumo ao sucesso retumbante. Aliás, nem as cabeças dos próprios comparsas teve a fineza de poupar. É um verdadeiro herói nacional.


Só lhe posso desejar que tenha a mesma sorte dos que o antecederam. Hoje, os que pisotearam vítimas aleatórias e traíram os seus estão com as burras cheias de dinheiro. Ainda por cima, gozam de prestígio, público fiel e reverências. Palpitam com deboche diante de cadáveres de uma pandemia e ainda há quem os aplauda.


Fernando Vieira de Mello era muito mais sábio que eu. Houvesse colocado o mata-burro na porta, sobrariam ele e mais meia dúzia com defeitos incorrigíveis. Tinham coragem, caráter e trabalhavam. Um desaforo completo, párias da sociedade. Hoje, seu Fernando é nome do túnel sob a avenida Rebouças. Acima do túnel, os burros governam.


* Este é um texto ficcional, uma CRÔNICA. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


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